A verdadeira riqueza não está naquilo que acumulamos, mas na integridade de quem escolhemos ser.
I - O peso invisível das escolhas.
Existe uma pergunta que acompanha a humanidade desde muito antes de aprendermos a construir cidades, escrever leis ou cunhar moedas. Ela atravessou impérios, sobreviveu às revoluções, resistiu às mudanças do tempo e continua, silenciosamente, esperando por cada geração.
Não é uma pergunta sobre economia, também não é uma pergunta sobre religião, muito menos sobre sucesso, todavia, é uma pergunta sobre identidade: Quem somos quando ninguém está olhando?
Vivemos cercados por indicadores capazes de medir quase tudo. Medimos a produtividade, o crescimento econômico, a expectativa de vida, o desempenho escolar, o patrimônio financeiro, a influência nas redes sociais, o número de seguidores, os resultados das empresas e até a qualidade do sono.
Nunca soubemos medir tantas coisas e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos encontrado tanta dificuldade para responder à única pergunta que realmente importa: Quanto vale um ser humano?
A resposta parece simples, tão simples que quase ninguém percebe sua profundidade.
Um ser humano não vale pelo que possui, bale pelo que é, entretanto, basta observar a sociedade durante alguns minutos para perceber que vivemos como se acreditássemos exatamente no contrário.
Desde cedo aprendemos a celebrar conquistas visíveis: A primeira nota alta, o primeiro salário, o primeiro carro, a promoção desejada, a casa própria, o patrimônio construído, o reconhecimento profissional.
Nada disso é errado. Ao contrário. O trabalho digno é uma das expressões mais nobres da existência humana, porque representa esforço, dedicação e compromisso com a própria história.
O problema nunca esteve em conquistar, ele começa quando deixamos que as conquistas respondam por nós.
Quase sem perceber, substituímos uma pergunta por outra.
Deixamos de perguntar: "Quem estou me tornando?" e passamos a perguntar: "O que ainda me falta para eu ser feliz e completo?"
Há uma diferença silenciosa entre essas duas perguntas: A primeira constrói pessoas, a segunda constrói ausências. Uma nos aproxima da consciência, a outra, frequentemente, nos aproxima das desordens mentais.
Talvez seja justamente essa a tragédia mais discreta do nosso tempo: além de estarmos apenas acumulando coisas, estamos ainda aprendendo a nos medir por elas e toda vez que isso acontece, alguma parte da nossa humanidade começa, lentamente, a ser negociada e isso não acontece de uma única vez.
Ninguém acorda pela manhã decidindo abandonar a própria dignidade, as grandes perdas da vida quase nunca acontecem de forma abrupta, elas começam pequenas, tão pequenas que passam despercebidas.
No primeiro momento sacrificamos um princípio em nome de uma vantagem aparentemente insignificante, depois justificamos uma mentira porque ela parece conveniente, em seguida aceitamos um privilégio que sabemos não merecer, mais tarde descobrimos que nossa consciência já não protesta com a mesma intensidade de antes e porque afirmo que a partir daí surgem as desordens mentais? Tudo que causa anomia em nosso estado de vida não é típico, mas sim, patológico.
Existe algo profundamente curioso na natureza humana: A consciência não desaparece, ela se acostuma, talvez por isso as maiores tragédias morais da humanidade quase nunca tenham começado com grandes crimes, começaram com pequenas permissões.
A história demonstra que ninguém se torna corrupto no dia em que desvia milhões, muito antes disso houve um instante quase invisível, um momento em que alguém olhou para a própria consciência e perguntou: "Desta vez não fará diferença.".
Foi exatamente aí, não no dinheiro, não no poder, não no ato, mas na decisão silenciosa de negociar aquilo que até então parecia inegociável e é curioso perceber como quase sempre procuramos explicar essas escolhas olhando apenas para fora: Apontamos para o sistema, para a política, para a desigualdade, para a economia, para a educação. Todos esses fatores possuem enorme importância e influenciam profundamente o comportamento humano. Ignorá-los seria simplificar uma realidade extremamente complexa.
Mas existe uma dimensão da existência que nenhuma estrutura social consegue substituir, a saber, a liberdade de escolher. Todos nós estamos predestinados a escolher o que podemos ou não fazer de nossas vidas, mesmo quando as circunstâncias são injustas, permanece diante de cada pessoa um espaço íntimo onde nenhuma lei consegue entrar, e é exatamente aí que moram os princípios. É ali que nasce a honestidade, que a dignidade deixa de ser um discurso e se transforma em modo de viver.
Talvez seja justamente por isso que duas pessoas submetidas às mesmas dificuldades possam construir histórias completamente diferentes.
As circunstâncias influenciam, mas não escrevem sozinhas o destino moral de ninguém.
Existe sempre um instante em que a decisão deixa de pertencer ao mundo e passa a pertencer exclusivamente à consciência e é nesse lugar silencioso que a identidade humana começa a ser construída: Não pelo que conseguimos conquistar, mas pelo que nos recusamos a perder.
Talvez você esteja lendo estas palavras esperando encontrar uma reflexão sobre dinheiro, mas não é dinheiro, É apenas uma metáfora, poderíamos substituí-lo por fama, influência, reconhecimento, beleza, prestígio, ou qualquer outra coisa que o ser humano transforme em medida do próprio valor.
O problema nunca foi o objeto do desejo, mas sempre foi entregar a ele uma função que jamais poderia cumprir.
Nenhum patrimônio consegue responder à pergunta: "Quem sou eu?", porque identidade não se compra, constrói-se e toda construção exige fundamento: Casas precisam de alicerces, arvores precisam de raízes, pontes precisam de pilares, o ser humano também.
Quando esses fundamentos deixam de existir, qualquer sucesso passa a ser insuficiente, perigoso e fascinante.
É por isso que algumas pessoas chegam ao topo da carreira e experimentam um vazio que não conseguem explicar, outras acumulam riquezas e continuam vivendo como se estivessem permanentemente ameaçadas pela escassez, algumas alcançam reconhecimento público e, ainda assim, dependem desesperadamente da aprovação de desconhecidos.
Diante de tudo isso, não lhes falta patrimônio, falta estrutura, continente firme e sólido e talvez seja exatamente aqui que a pergunta "ter ou ser?" revele sua verdadeira profundidade.
A pessoa nunca tratou de escolher entre riqueza e pobreza, nunca foi uma oposição entre prosperidade e simplicidade. A verdadeira questão sempre foi outra: Quanto daquilo que somos estamos dispostos a entregar para conseguir aquilo que desejamos possuir?
Essa é a balança invisível que acompanha todos os seres humanos: De um lado, colocamos nossos sonhos, do outro, nossos princípios. Enquanto ambos permanecem equilibrados, crescemos, mas, quando um começa a exigir o sacrifício do outro, deixamos de conquistar e a partir daí damos início a nossa queda e o mais destrutivo e complicado de tudo isso, talvez ninguém perceba isso imediatamente. Pois os aplausos continuam, os resultados aparecem, as metas são alcançadas, o patrimônio cresce, reconhecimento chega, tudo parece funcionar, exceto uma coisa, a saber, deparar-se frente ao espelho.
Porque existe um tipo de pobreza que não aparece nos extratos bancários, mas aparece no instante em que alguém evita permanecer sozinho consigo mesmo, não porque lhe falte companhia, mas porque já não suporta a conversa com a própria consciência, outrossim, isso pode se manifestar com utilização de máscaras sociais, modelos cognitivos de compensação e influências indutoras de conformidade diante da anomia mental que está se instalando.
II - A ilusão do ter
Quando confundimos patrimônio com identidade, há um fenômeno curioso na vida humana, quase ninguém deseja dinheiro apenas pelo dinheiro.
Se alguém encontrasse uma mala cheia de cédulas em uma ilha completamente deserta, onde não existisse comércio, pessoas ou qualquer possibilidade de troca, aquele dinheiro perderia imediatamente o seu valor, seria algo inútil , não sendo loucura, por exemplo, queimá-lo para se aquecer.
No filme "O naufrago" o personagem principal Chuck Noland adota uma bola como seu amigo, o "Wilson". Naquele contexto, a bola Wilson não era anomia, nem desordem mental, mas necessidade de ter alguém, mesmo que imaginário para manter a sanidade, pois, não é bom que o homem esteja só e naquele contexto, ajudou o personagem principal a se organizar mentalmente e depois fisicamente para poder sair daquela ilha.
A trajetória neste filme ilustra de forma muito simbólica a diferença entre "ter e ser", ao perder tudo, resta-lhe apenas aquilo que realmente constitui sua humanidade e é justamente esta experiência que faz do filme uma poderosa reflexão sobre dignidade, sentido da vida e reconstrução da identidade.
O dinheiro, por si só, não alimenta, não abraça, não consola, não ama. Ele só possui significado porque representa outra coisa, possibilidades, escolhas, segurança, liberdade, ou, pelo menos, a promessa destas coisas.
Talvez seja exatamente aqui que comecemos a nos enganar: Não buscamos apenas possuir recursos, buscamos aquilo que acreditamos que eles poderão nos fazer sentir, o problema é que sentimentos não obedecem à lógica do mercado.
É possível comprar uma casa, mas não um lar, adquirir uma cama, mas não o descanso, pagar uma festa, mas não uma amizade verdadeira, conquistar respeito pela posição que se ocupa, mas jamais ter integridade que não se possui, a vida é repleta dessas distinções silenciosas, confundimos, porém, os meios com os fins.
Acreditamos que, acumulando determinadas conquistas, alcançaremos automaticamente a paz que imaginamos existir do outro lado do sucesso, e seguimos correndo.
Sempre um pouco mais, sempre acreditando que falta apenas mais uma promoção, mais um investimento, mais um reconhecimento, mais um título, mais um patrimônio.
É como caminhar em direção ao horizonte, quanto mais avançamos, mais ele parece se afastar, não porque o horizonte esteja fugindo, mas porque nunca foi um lugar, era apenas uma direção.
Assim também acontece com muitos dos desejos humanos, pois, existe um mecanismo psicológico conhecido por todos nós, ainda que nem sempre percebido, a satisfação produzida por uma conquista é intensa, mas breve: O automóvel novo deixa de ser novo, a casa dos sonhos transforma-se na casa onde pagamos contas, o cargo desejado passa a produzir novas cobranças e responsabilidades nas quais muitas vezes nem estávamos prontos para elas, aquilo que ontem parecia extraordinário torna-se, pouco tempo depois, absolutamente comum.
O ser humano adapta-se rapidamente às próprias conquistas e essa adaptação, que nos permitiu sobreviver ao longo da evolução, também explica parte da nossa permanente sensação de insuficiência.
O problema não está em desejar crescer, crescer é saudável, aprender é saudável, produzir é saudável, construir patrimônio com honestidade é saudável. O problema nasce quando transformamos o crescimento em identidade, porque tudo aquilo que pode ser perdido jamais deveria definir quem somos.
Imagine uma árvore: Durante o outono, ela perde as folhas, alguns galhos secam, os frutos desaparecem. Vista de longe, alguém poderia acreditar que ela morreu, mas não morreu, porque sua vida nunca esteve nas folhas, sempre esteve nas raízes.
O ser humano também possui raízes, elas não estão na profissão, nem no patrimônio, nem no sobrenome, nem no prestígio, estão nos valores que sustentam sua existência quando tudo o mais desaparece.
É justamente por isso que algumas pessoas suportam perdas imensas sem perder a própria humanidade, enquanto outras desmoronam diante da menor ameaça ao status que construíram.
Pessoas cuja anomia moral, mental e intelectual foi instalada não perderam dinheiro, perderam aquilo sobre o qual haviam construído a própria identidade.
Existe uma pergunta que raramente fazemos: Quem eu seria se todas as minhas conquistas deixassem de existir? É uma pergunta desconfortável, talvez porque ela retire de nós todas as respostas fáceis.
Se amanhã desaparecessem o cargo, o patrimônio, os títulos, a influência e o reconhecimento... restaria diante do espelho alguém que você teria orgulho de apresentar ao mundo?
Essa pergunta não pretende diminuir a importância das conquistas, pelo contrário, ela procura recolocá-las no lugar que lhes pertencem, pois conquistas são capítulos da vida, jamais deveriam ser o autor da história.
Existe uma diferença profunda entre possuir bens e pertencer a eles, à primeira vista, essa afirmação parecer estranha, mas observe atentamente: Há pessoas que administram seu patrimônio e há pessoas administradas pelo que possui. As primeiras utilizam aquilo que possuem como instrumento para viver, as segundas passam a viver exclusivamente para preservar aquilo que possuem, não medindo esforços para tal.
O patrimônio deixa de servir à vida. A vida passa a servir ao patrimônio e é nesse instante que a liberdade começa a desaparecer, que a anomia moral, mental e intelectual começa a trilhar o caminho do ser humano destruindo tudo pela frente.
Talvez a maior escravidão do mundo não seja a pobreza, contudo a incapacidade de deixar de possuir aquilo que acreditamos possuir, porque existem riquezas que libertam, mas também existem riquezas que aprisionam. Da mesma forma, existem pessoas extremamente simples cuja liberdade interior impressiona qualquer observador, não porque lhes faltem ambições, mas porque compreenderam que nenhum objeto merece custar a própria consciência.
Essa talvez seja uma das diferenças mais profundas entre preço e valor. Preço pertence às coisas, valor pertence às pessoas.
Tudo aquilo que pode ser comprado possui preço, outrossim, a dignidade, não, nunca esteve à venda, sempre que alguém tentou negociá-la, recebeu dinheiro em troca, mas perdeu algo infinitamente maior, a possibilidade de olhar para si mesmo sem precisar justificar aquilo que se tornou.
É curioso quando pensamos em pobreza, imaginamos imediatamente a ausência de recursos materiais, entretanto, talvez exista uma forma de pobreza ainda mais devastadora a saber, a pobreza moral, não aparece nas estatísticas, não pode ser medida pelos economistas, não depende do saldo bancário, porém se revela quando alguém passa a acreditar que tudo possui um preço, inclusive a própria consciência.
É nesse momento que o "ter" deixa de ser uma conquista, transforma-se em um substituto imperfeito daquilo que o "ser" deixou de oferecer, um anômalo de sua própria existência, quanto mais vazio alguém se sente por dentro, maior costuma ser a necessidade de provar, por fora, que possui valor, talvez seja por isso que alguns patrimônios cresçam exatamente na mesma velocidade em que a paz diminui e é substituída por uma consciência obscura, sem empatia, sem se importar com as pessoas que estão a sua volta, tudo pode ser usado, comprado e as pessoas passam a ser parte de uma engrenagem que começa a rodar consumindo tanto quem está sendo usado quanto quem usa.
Existe um silêncio que dinheiro algum consegue comprar, o silêncio de uma consciência reconciliada consigo mesmo, essa riqueza não aparece nas declarações de imposto de renda, não pode ser herdada, não depende da cotação de nenhuma moeda, ela nasce todas as manhãs, quando uma pessoa escolhe permanecer fiel àquilo que acredita ser correto, mesmo sabendo que ninguém descobriria caso agisse de forma diferente.
Talvez seja essa a única riqueza que realmente aumenta à medida que é compartilhada, porque uma consciência íntegra não transforma apenas quem a possui, inspira todos aqueles que têm o privilégio de encontrá-la.
III – Quando o ser pode escolher: a lenta negociação da consciência
Talvez a maior tragédia moral da existência humana seja também a mais silenciosa, não acontece no dia em que alguém comete um grande crime, não começa quando uma fortuna é desviada, nem quando uma mentira destrói uma família, muito menos quando um nome passa a ocupar as manchetes dos jornais. Tudo isso acontece depois, muito depois.
Antes existe um acontecimento invisível: Uma conversa, não entre duas pessoas, mas entre um ser humano e a própria consciência.
Há um instante em que todos nós, sem exceção, somos convidados a negociar aquilo que acreditamos ser.
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Quase sempre pensamos: "É só desta vez."
A consciência, porém, possui uma característica que raramente percebemos, ela aprende.
Se hoje ela aceita uma pequena concessão, amanhã encontrará argumentos para justificar uma concessão um pouco maior, não porque tenha deixado de conhecer o certo, mas porque aprendeu a conviver com o desconforto de fazer o errado e é assim que nasce a banalização da própria consciência e dá à luz a anomia moral, intelectual e cognitiva.
A Psicologia descreve diversos mecanismos pelos quais protegemos a imagem que temos de nós mesmos. Quando nossas ações entram em conflito com os valores que afirmamos defender, surge um desconforto interno. Em vez de reconhecer esse conflito e revê-lo, muitas vezes fazemos o contrário: criamos explicações que tornam nossas escolhas aceitáveis aos nossos próprios olhos.
Não mentimos apenas para os outros, aprendemos, com impressionante habilidade, a mentir para nós mesmos, ao passo de dizermos que todos fazem igual, que era necessário, que ninguém foi realmente prejudicado, que o sistema já é injusto, que tínhamos direitos, que merecíamos.
Cada justificativa parece pequena, mas todas têm o mesmo efeito, elas silenciam, pouco a pouco, a voz da consciência, talvez seja justamente por isso que a verdadeira corrupção seja muito anterior ao dinheiro, ela começa quando deixamos de sentir incômodo diante daquilo que antes nos envergonhava.
Existe um momento em que o erro deixa de ser exceção e passa a fazer parte da identidade, essa transformação é lenta, quase imperceptível.
Ninguém acorda pela manhã decidido a tornar-se uma pessoa desonesta, da mesma forma que ninguém se torna virtuoso por acaso, ambos os caminhos são construídos pelas pequenas escolhas que fazemos todos os dias.
A vida não é transformada apenas pelos grandes acontecimentos, é moldada pelos hábitos invisíveis, pela maneira como tratamos quem não pode nos oferecer vantagens, pela honestidade com que utilizamos aquilo que não nos pertence, pela forma como falamos de alguém que não está presente, pela responsabilidade com que cumprimos uma promessa. Esses gestos parecem pequenos, mas são eles que esculpem o caráter.
Existe uma frase frequentemente atribuída a diferentes pensadores que afirma que "o caráter é aquilo que fazemos quando ninguém está olhando". Independentemente de sua autoria, ela traduz uma verdade profundamente humana: É fácil agir corretamente quando existe fiscalização, é simples parecer honesto quando todas as decisões são observadas.
A verdadeira integridade nasce quando a única testemunha é a própria consciência, é nesse momento que compreendemos uma diferença fundamental, a ética não depende da presença de um juiz, depende da presença de um princípio.
Quem necessita ser observado para agir corretamente ainda não encontrou a liberdade moral, apenas aprendeu a obedecer e obedecer não é o mesmo que ser íntegro.
A integridade não é uma resposta ao medo da punição, é uma resposta ao respeito que nutrimos por nós mesmos. Talvez por isso algumas pessoas consigam permanecer honestas mesmo quando perderiam muito por causa dessa escolha, compreenderam que existe algo mais valioso do que qualquer patrimônio, a saber, a possibilidade de continuar reconhecendo a própria imagem diante do espelho.
Durante anos, ouvi pessoas relatarem suas histórias, suas perdas, suas conquistas, seus arrependimentos e suas esperanças. Há algo que se repete com impressionante frequência: ninguém sofre profundamente por não ter comprado um bem material alguns anos antes, mas muitos sofrem pelas escolhas que fizeram quando decidiram abandonar aquilo que consideravam correto, pois os maiores arrependimentos da vida raramente dizem respeito ao que possuímos, dizem respeito ao que deixamos de ser.
Existe um tipo de dor que não nasce da escassez, nasce da incoerência e aparece quando percebemos que construímos uma vida admirada pelos outros, mas desconhecida por nós mesmos.
Quando o aplauso externo já não consegue silenciar a crítica interior, quando o sucesso deixa de compensar a perda da paz, esse talvez seja o preço mais alto que um ser humano pode pagar, porque dinheiro recupera patrimônio, o tempo recupera oportunidades, a medicina recupera, muitas vezes, a saúde, mas há perdas que só podem ser restauradas quando encontramos coragem para voltar a ser quem um dia deixamos de ser e talvez essa seja uma das maiores demonstrações de esperança que a própria condição humana nos oferece.
A dignidade pode ser ferida, pode ser esquecida, pode até ser escondida sob camadas de orgulho, medo ou ambição, mas nunca deixa completamente de chamar por nós, pois enquanto houver consciência, haverá possibilidade de retorno.
“A sabedoria clama por nós, nas ruas se escuta o seu chamar, grita, clama, chama quem a abandonou de volta e quando isso ocorre, entramos em contato com quem verdadeiramente somos, sem maquiagem, sem máscaras, mas como um espelho de corpo inteiro mostrando todo nosso ser diante de nós.”
Enquanto houver arrependimento sincero, haverá espaço para reconstrução e diante disso, uma grande pergunta se depara diante de nós: O que fazemos depois de perceber que nos afastamos de quem desejávamos ser?
Talvez seja nesse momento que a dignidade revele sua face mais bonita, ela não pertence às pessoas perfeitas, pertence às pessoas que, tendo errado, recusam-se a transformar o erro em morada.
A verdadeira grandeza não está em jamais cair, está em jamais aceitar permanecer no chão quando a consciência continua estendendo a mão para nos levantar
IV - A única riqueza que permanece
Há um hábito curioso entre os seres humanos: Passamos boa parte da vida fazendo planos para um futuro que imaginamos controlar.
Planejamos a profissão, a casa, a aposentadoria, os investimentos, as viagens, as conquistas e não há nada de errado nisso.
Planejar é uma forma de respeitar o amanhã, mas existe um amanhã para o qual quase nunca nos preparamos, o dia em que deixaremos de estar aqui.
Não gostamos de pensar na finitude, ela nos desconcerta, talvez porque nos obrigue a reconhecer que existe uma verdade diante da qual todos os patrimônios se tornam igualmente pequenos.
O tempo nunca perguntou quanto possuíamos, sempre perguntou quem nos tornamos enquanto ele passava.
Imagine, por um instante, uma cena que um dia acontecerá com todos nós: Alguém abrirá aquilo que hoje chamamos de patrimônio, Talvez um filho, uma filha, um irmão, alguém que jamais conhecemos e que apenas cumprirá um procedimento legal.
Haverá documentos, escrituras, contratos, fotografias, objetos guardados durante anos: Livros, roupas, recordações, talvez até cartas esquecidas em alguma gaveta.
Cada uma dessas coisas contará uma pequena parte da nossa história, dirá onde moramos, o que compramos, quanto acumulamos, o que deixamos, mas nenhuma delas responderá à pergunta mais importante de todas: Quem fomos?
Essa resposta nunca esteve escrita em um contrato, jamais apareceu em um extrato bancário, nunca coube dentro de um cofre, mas sempre esteve escondida em outro lugar: Na lembrança daqueles que caminharam ao nosso lado, porque é ali que a verdadeira herança continua vivendo, não nas coisas que deixamos, mas nas marcas que permanecem nas pessoas.
Há quem seja lembrado pela inteligência, outros pela competência, alguns pelo poder que exerceram, nada disso é desprezível, mas, quando o tempo passa, existe algo que se torna infinitamente maior do que qualquer realização: A forma como fizemos alguém sentir-se em nossa presença.
Talvez essa seja a medida mais honesta de uma existência, não o tamanho da casa em que vivemos, mas o espaço que ocupamos no coração de quem encontrou abrigo em nossa humanidade.
Há pessoas que atravessam a vida acumulando bens, outras atravessam a vida distribuindo dignidade. O primeiro grupo costuma deixar heranças, o segundo grupo deixa referências.
Heranças podem ser gastas, referências continuam educando gerações.
Uma fortuna muda de proprietário, um exemplo muda destinos, talvez por isso a dignidade seja uma das poucas riquezas que aumentam quando compartilhadas.
Quanto mais honestidade encontramos, mais honestidade inspiramos, quanto mais respeito oferecemos, mais humanidade ajudamos a construir, quanto mais integridade preservamos, maior se torna a confiança daqueles que convivem conosco.
É assim que uma sociedade verdadeiramente se transforma, não apenas por meio de leis, nem exclusivamente por políticas públicas. Uma sociedade muda quando homens e mulheres comuns decidem que sua consciência não está à venda, quando compreendem que existem valores cujo preço simplesmente não pode ser calculado, para todas as outras coisas existem MasterdCard.
Vivemos um tempo em que quase tudo possui valor de mercado: produtos, serviços, conhecimento, tempo, imagem, influência, mas ainda existe algo que permanece absolutamente inalcançável para qualquer negociação: A consciência reconciliada consigo mesma.
Não existe moeda capaz de comprá-la, não existe poder suficiente para impô-la sabe por quê? A consciência nasce de uma escolha silenciosa, repetida diariamente, quase sempre distante dos aplausos, talvez seja essa a forma mais elevada de liberdade de continuar sendo quem se é, mesmo quando o mundo inteiro oferece recompensas para que sejamos outra pessoa.
V - Conclusão
Ao longo deste ensaio, caminhamos por uma pergunta antiga: “Ter ou ser, o que escolher? o mesmo dilema contido na obra A tragédia de Hamlet, e esta dúvida permeia por todo este artigo, buscando dentro de cada um de nós a resposta.
Se a sua resposta é tudo bem para a corrupção, roubalheira e anomia mental, social e moral, tudo bem, é seu livre arbítrio, porém, se escolheu a honestidade, honra e respeito, acredito que este caminho é melhor para ter uma autoconsciência plena de si e de quem está próximo de você.
Talvez, agora, possamos perceber que ela nunca exigiu uma escolha entre riqueza e simplicidade, nunca foi um convite para desprezar o trabalho, o crescimento ou a prosperidade, seria injusto pensar assim.
O trabalho digno merece ser celebrado, a competência merece reconhecimento, o sucesso construído com honestidade honra a própria condição humana.
O problema nunca foi possuir, sempre foi permitir que aquilo que possuímos ocupasse o lugar daquilo que somos, pois, quando isso acontece, deixamos de administrar os bens, passamos a ser administrados por eles e toda vez que isso acontece, a dignidade começa, silenciosamente, a perder espaço para a aparência.
Mas existe uma boa notícia: A humanidade nunca deixou de oferecer outro caminho, todos os dias, milhões de pessoas levantam-se para trabalhar honestamente, educam seus filhos com retidão, recusam vantagens indevidas, cumprem promessas, reconhecem seus erros, pedem perdão, recomeçam.
Essas pessoas dificilmente aparecerão nas manchetes, talvez jamais recebam homenagens, entretanto, são elas que sustentam, silenciosamente, a esperança de que ainda vale a pena confiar no ser humano, porque a civilização não permanece de pé apenas às grandes lideranças, permanece porque pessoas comuns continuam escolhendo fazer o que é certo, mesmo quando ninguém lhes promete recompensa.
Talvez essa seja a verdadeira definição de dignidade, a dignidade é aquilo que permanece intacto quando ninguém pode nos obrigar a fazer o que é certo, nasce da liberdade, cresce na coerência, fortalece-se na responsabilidade e floresce sempre que o caráter vence a conveniência.
No início deste ensaio fizemos uma pergunta: Quanto vale um ser humano? Agora talvez possamos respondê-la.
Um ser humano vale exatamente aquilo que nenhuma fortuna consegue comprar: Sua palavra, consciência, capacidade de amar, honestidade, coragem de permanecer fiel aos próprios princípios quando seria muito mais fácil abandoná-los.
No fim, descobrimos que o verdadeiro patrimônio nunca esteve nas mãos, sempre esteve no caráter, porque tudo aquilo que possuímos um dia encontrará outro dono, porém, aquilo que fomos, continuará vivendo na memória daqueles que tiveram o privilégio de encontrar, pelo caminho, alguém que escolheu permanecer humano.
Uma última reflexão
Quando este texto terminar, a vida continuará exatamente como antes: As contas ainda precisarão serem pagas, os compromissos continuarão esperando, os sonhos permanecerão exigindo esforço, nada disso mudará.
O que talvez possa mudar é a forma como cada um de nós responderá à próxima decisão silenciosa que a vida nos apresentar: Aquela decisão que ninguém verá, aquela em que não haverá aplausos nem condenações, apenas você e a sua consciência, porque é nesse instante — e não nos grandes acontecimentos — que o ser humano decide, mais uma vez, quem deseja ser e talvez seja justamente aí que a antiga pergunta encontre, enfim, sua resposta.
Ter é uma circunstância, ser é uma escolha.
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Assinatura do autor
"Escrevo porque acredito que compreender o ser humano continua sendo a forma mais profunda de cuidar dele. Enquanto houver perguntas sobre a nossa humanidade, haverá razões para continuar escrevendo.". No próximo artigo vou explicar a neurociência de tudo isso que permeamos neste artigo: o “ter e o ser” e os sistemas neurológicos envolvidos nesta dualidade.
Alexandre Martins dos Santos
Psicólogo CRP 06/94797

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